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Audio da velharia
A alma na pedra
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A DOR DA SOMBRA
Minha verdade sobre o retorno à Pátria Mãe
Chamam-me Sole, o que significa sol na língua italiana, mas estou aqui, olhando o filme do passado projetado no escuro de uma sala da minha mente, sem espectadores. Eu e minha dor: sou uma sombra. Sombra do que fui, sombra dos meus sonhos. Sombra porque estou completamente cercada por uma nuvem de falta de senso, o que me impede de ver a linha do limite atrás da qual deixei minhas pequenas grandes coisas.
Desde a infância sustentei o sonho da nossa geração, bisneta de imigrantes italianos oriundos da Região Vêneto. A etimologia da palavra origem (de origo, orior-surgir) indica a aproximação ao surgir de um astro: no oriente nasce a luz. Origo significa também sair da terra, andar pelos próprios pés, e é sinônimo de gênese que, como todos nós sabemos, é a história bíblica das origens. Então busquei, pesquisei... Porque é no sofrimento gerado pela distância da própria terra que nasce a necessidade de conhecer as origens e de retornar ao que forma a nossa identidade.
Voltei à terra de origem: Projeto ‘Rientro’ da Região Vêneto - Lei 02/2003. Comigo dezenas de jovens também descendentes, e meus filhos que hoje, por Lei Italiana, não podem levar também o meu sobrenome: primeira dor. É como ver a sequência de um filme sem encontrar espaço para dedicar ao espírito. O cotidiano na terra de origem cancelou o espaço dedicado ao ‘ser’ e tenta, de toda maneira, me envolver na identidade do ‘ter’. Desde os primeiros dias, o consumismo ligado ao ‘ter’ tentou colocar etiquetas até mesmo nos meus pensamentos. Pensava no Brasil, em recomeçar uma nova vida, mas esse recomeçar se transformou em reflexo de continuar na dificuldade de viver e numa completa ausência de relacionamento entre a origem e o que entendo ser vida. Vida aqui é sobrevivência. Se antes eu tinha o horizonte direcionado ao passado, hoje coloquei um muro e a cada minuto peço perdão aos meus filhos, que obrigatoriamente devem me sustentar, e ao meu bisavô Luigi Ângelo Soccol, porque certamente, se partiu de uma terra ingrata em direção a uma terra acolhedora, hospitaleira e produtiva, ele tinha razão. E sempre devemos ouvir os mais velhos: cosi te impari a star a casa tua. Sem esquecer as palavras mil vezes repetidas por minha mãe, Amélia Tomasetto Marca Soccol: ti te si come San Tomaso, no te fermi fin che non te meti el naso. Não se preocupe mãe, aprendi. Porque bateram com a porta na minha cara e meu nariz (não lembro onde li que o nariz é símbolo do ego...) está quebrado.
Caminhando na estrada coletiva, cada ser humano assinala o percurso de sua própria história. E o que eu assinalei? Da minha valise retiro retalhos de jornal, velhas fotografias, alguns objetos que se transformam em pequenas pedras semeadas na estrada da minha memória e, se alguém me olhasse nos olhos ainda leria um infalível autocontrole que se conquista domesticando dia a dia a dor, a angústia e a solidão dotadas de uma espécie de eternidade. Não aceito apoiar-me nas gerações que me precederam e carregaram nos ombros o pesado fardo de sofrimentos desconhecidos somente para diminuir a minha culpa. Culpa. Porque a vida é sagrada e é necessário ir além da dor, penetrar nas palavras e subir aquela escada colocada por engano na minha agenda. No último degrau, quem sabe... Porque a escada não é obrigatória, nem limitada e nem única e pode ser a continuação da existência. A Itália não é o centro do mundo e nem os italianos são os donos de todo o conhecimento ou da verdade. Muito menos da sabedoria. A escada e o muro ossificados dentro da sombra que sou me conduzem às palavras, mesmo que os italianos digam que uma mulher com mais de quarenta anos de idade é praticamente inútil e incapaz, ainda mais sendo nascida no Brasil, considerada então analfabeta ou, surpreendentemente, um peso para a Pátria Mãe.
Rendo formalmente justiça a mim mesma: advirto que as forças que dizem me pesar nos ombros não me impedem de alçar um novo vôo. O pesado fardo não foi imposto por mim, mas por mentiras e enganos aqui projetados e repassados a nós, crentes e confiantes na igualdade que deveria existir entre os povos, ainda mais sendo provenientes da mesma região, da mesma terra, da mesma Pátria Mãe. A minha existência inútil onde deveria ser a minha casa, pode ser dissipada projetando um futuro iluminado pela luz da memória, e porque não dizer, da minha verdade.
Quando nos ensinam a conjugação dos verbos, na escola, aprendemos de modo ilustrado e enriquecido, em dimensão humana: eu, tu, ele, nós. O sujeito no ambiente que o circunda no ‘presente’, enriquecido pelo ‘passado’, projetando o ‘futuro’ e sonhando, graças ao ‘condicional’. Talvez aqui a gramática seja diferente: existe o ‘eu’ no ‘presente’. Ou ‘nós’ os italianos, patrões da arte, da música, da história, da melhor cozinha mundial... Mas o ‘nós’, imigrantes do final do século 19 e a história da imigração, não são conhecidos. Não consigo entender como informações vindas de um passado tão próximo, sobre milhões de pessoas que partiram em desespero por fome, por miséria, ‘pelagra’ e por excesso de impostos, são desconhecidas para a maioria das pessoas... Como podem não saber? Não sabem que até 1935 a maior fonte de renda na Itália era o dinheiro que os emigrados mandavam para os que haviam permanecido na ‘Pátria Mãe’? Ou sabem e fingem não saber?
Não posso enumerar as dores que me transformaram em sombra. Mesmo com mais de quarenta anos sinto e sei que meu espírito é pleno, e com o espírito pleno não existe tempo para pausas. Pausar é perder o momento, o impulso, a idéia, o conteúdo e o objetivo. É desperdiçar as palavras que fluem com o encanto de mágico mistério, que podem transformar o insignificante em significado, o pequeno em grande. Porque aqui sou insignificante e pequena, sou sombra. Mas pode ser significado para os que tiverem o mesmo impulso de querer voltar porque assim podem saber que não é para todos, a terra de origem é Pátria e Mãe. Pode ser grande porque o despertar traz a verdade e coloca o dedo na ferida. Eu sou a minha alma e não a vendo. Doa a quem doer, a verdade continuará e sempre será verdade. Machiavel é um embuste.
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O porquê do retorno
Observando o presente, no olhar dos netos e bisnetos dos nossos imigrantes, sempre vi uma luz do passado que, os limitava a uma desconcertante nostalgia e a uma contemplação grandiosa a qualquer ponto de referimento que lhes pudesse mostrar um caminho, e dar a resposta: Quem sou? De onde venho? Nossa história de imigrantes era um labirinto, porque as raízes pareciam escondidas como um grande peso, ou dor e somente poderiam vir à luz através de perguntas, pesquisas... E muita paciência.
Minha cidade natal, Serafina Corrêa - RS – Brasil:
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A colonização da antiga ‘Linha Onze’ ou ‘ Rosário de Guaporé’, iniciou-se por volta de 1892, com a chegada dos primeiros imigrantes italianos, oriundos do norte da Itália.
Os pioneiros traziam em si um grande ideal, e o desejo de fazer da nova terra, a sua nova Pátria.
Em 07 de agosto de 1930, com a intervenção do Estado, foi fixada como Distrito, condição em que permaneceu até 25 de Julho de 1960, quando pela Lei nº 3.932 foi elevada a categoria de Município, desmembrando-se de Guaporé.
O nome Serafina Corrêa, é uma homenagem à esposa do 1º Intendente da cidade mãe, Sr. Vespasiano Corrêa.
No ano de 1985, minha cidade natal, Serafina Corrêa, inaugurou o que hoje é um grande marco na história da Cultura Italiana no Rio Grande do Sul: a Nave Degli Immigranti, obra do escultor Paulo Siqueira (in memorian), em homenagem aos imigrantes, sua coragem, sua vontade, seu desempenho, sua luta e sua vitória. Em 1988, através do Decreto Lei n° 43 de 1988 do então Prefeito Municipal, Sr. Sergio Antonio Massolini, na Semana de Emancipação do Município, a língua oficial seria o nosso dialeto/Talian. Em seqüência do Decreto Lei, a Festitália, que é uma semana de manifestações culturais em dialeto Vêneto Brasileiro e/ou Talian: teatro, música, feiras etc. Com a participação de toda a população, foi sendo escrito como em um livro ilustrado com personagens vivos a nossa história pessoal e coletiva. A passagem de uma geração à outra não foi repetição: evoluímos. Serafina Corrêa, emancipada em 1960, conta hoje com mais de 12.000 habitantes e tem como ponto de referimento, destacado no Brasil e em outros países, a Via Gênova, onde se encontram as réplicas de casas famosas na Itália (Castello Inferiore di Marostica, Casa di Romeo, Casa di Giulietta, La Rotonda e o Coliseu, sem esquecer a Nave Degli Immigranti). Há anos as rádios transmitem programa dominical no nosso ‘Talian ou Vêneto Brasileiro’, nosso jornal tem um espaço dedicado à Cultura Italiana, Ciàcole (14 anos), escrita por mim, com a colaboração de todo o nosso povo que ama e cultua nossa memória. Cidades vizinhas contam com população maior ou menor de Serafina Corrêa, sem esquecermos que a nossa ‘vida imigrante’ teve início em 1875, e todas cultuam a mesma memória, a mesma nostalgia e o mesmo respeito, o que nos honra e dignifica.
Onde eu entro na história?
Por amor, comecei a busca do rico material do passado guardado na memória do nosso povo, provando, então, que a passagem das gerações, não sendo repetição, pode ser construção. Passando de casa em casa, aos domingos, fui registrando os cantos, os ditos populares, as orações, os provérbios, as estórias e histórias e, ao mesmo tempo, reconstruindo e dando continuidade ao que acredito ser ‘nossa verdadeira identidade’ (isso por mais de quinze anos). Fiz parte, aos domingos de manhã, do programa ‘ La Voce Del Vêneto’ na Rádio Odisséia FM e, diretamente do programa, marcava encontro com os nonos e suas comunidades ou capelas. Agradeço ao Dr. Paulo bsoc5é Massolini, que também resgatou parte da nossa cultura, e hoje é Presidente da FIBRA-RS (Federação das Associações Ítalo Brasileiras do Rio Grande do Sul), que me incentivou nesse sentido de buscas, colocando no ar a voz do nosso povo, muitas vezes registrada com lágrimas nos olhos porque na nossa história o amor e a dor fazem parte.
Mas era tão pouco. Os registros no jornal, antes no ‘Sexta-Feira’ (maio de 1993), depois, graças a Ana Maria Schizzi e Renato Paz, ‘O Novo Jornal’ e, (01-07-93) até hoje, ‘O Serafinense’ (10-03-95), ‘Ciàcole’, foram também de grande valor, pois me incentivavam a registrar cada palavra na nossa língua de origem, me impulsionavam a escrever no nosso Talian. E assim fui compondo um caminho sem volta. O amor pelas origens era uma exigência de continuidade: fiz músicas em Talian, fui vocalista do Grupo Sagra, recebi dezenas de prêmios no Brasil e na Itália, tanto pelas músicas como pelas poesias e, para poder auxiliar mais de perto aos nossos imigrantes, para que pudessem ter um apoio permeável e gratuito, fundei, junto com Nadir Gobbi, Sidnei Canton, Roseli Luzzi, Edemir Chiodelli, Edilene Rotta e mais um grupo de pessoas, a Associazione Origine Italiana, registrada oficialmente em 1994, que no ano de 1995 integrou o Grupo de Danças Folclóricas ‘Ricordi Del Ballo’, coordenado pela Professora Terezinha Lorenzet Borges, com 145 alunos.

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Prêmios recebidos no Brasil.
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Prêmios recebidos na Itália.

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Primeiro Prêmio Poesia Vicentini nel Mondo 22-03-2003, com Manoela
Dal Lago, Presidente da Provincia de Vicenza.


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Meu Amigo de coração e alma, Milosc Voutcinitch, que sempre recebeu os prêmios por mim. Aqui, ‘Poesia Campagnolla’ em Piove di Sacco-Padova.
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Existem fatos que parecem pesantes, mas nada pode impor à verdade um preço.
Por que o amor nos conduz a querer resolver enigmas ou compreendê-los? Bastava simplesmente dar um nome à impossibilidade, defini-la como irreversível, apesar de legítima e digna de respeito. Bastava continuar sendo simplesmente Sole. Mas de dentro, do coração da minha alma, emergiam objetos significantes, fotografias das cidades de origem de meus antepassados, a emoção de descobrir a função sacra do sonho, e reencontrar os caminhos da memória, através dos quais poderia escrever a minha própria versão.
Em agosto de 2002 teve início o que considero hoje o ideal do ego inclinado. Quando não se consegue um verdadeiro encontro com as próprias origens nem consigo mesmo, a identidade se dobra e ali permanece sem chegar a lugar algum. Eu desejava vir para a Itália, acreditava que aqui encontraria a origem da cultura, que poderia registrar coisas incríveis com os nonos, entre os diálogos e as raízes.
Um projeto realizado pela Regione Vêneto, através de uma Agência italiana, parecia o caminho. O aluguel seria no mínimo de Euros 150 a 300 (não explicaram que esse valor seria por pessoa e não pelo apartamento), mais as despesas de consumo de água, luz e gás. Diziam que com 150 Euros de alimentos, se viveria bem. E por que não acreditar quando os donos do poder iam às nossas cidades, nas Prefeituras para falar com os Prefeitos, quando enviavam cartas firmadas pelos mesmos donos do poder, oferecendo cursos, estágio e depois emprego? Eu mesma recebi diversas correspondências, como Solange Maria Soccol e como Associazione Origine Italiana. As rádios do Talian liam, embevecidas, os Projetos de Rientro. Como e por que não acreditar?
Não sei o quanto fiz papel de idiota procurando documentos para os jovens da nossa cidade e das cidades vizinhas. Ofereci-me para ajudar e passei meses sem descanso, porque eram dezenas de telefonemas diariamente, até a meia-noite. E dos telefonemas passamos aos documentos, aos advogados. Incluídos Sole e seus filhos.
Despesas com advogados, documentos, certificados de nascimento, casamento e óbito (originais depois corrigidos), buscas: R$ 3.500,00. E viagens para entrevistas e preenchimento de currículos em Caxias do Sul... Perdi a conta. Quantas vezes foram preenchidas as fichas onde perguntavam o que desejávamos fazer? Perdi a conta (meu filho sempre preencheu que desejava fazer o Curso de Mecânica, que era uma das opções, no entanto, estranhamente, aqui fez curso de Operário Conciario (curtume), no grupo dos onze desse mesmo Curso. Minha filha, por ser menor de idade, faria o Curso como ‘ouvinte’, não receberia o valor de Euros 800 prometidos para o final do Curso... Mas o estágio ela fez: duas semanas trabalhando por oito horas diárias, carregando couro e colocando nas máquinas, gratuitamente). Quantas despesas mais? Cada documento deveria ser carimbado pelo Consulado a um custo X, cada documento deveria ser traduzido a um custo X. Eu, divorciada, deveria traduzir todo o processo de separação e divórcio. Poucos dias antes de virmos, pagamos três meses de INSS, como desempregados, para podermos obter aqui a Carteira de Saúde. Quanto gastei? Perdi a conta. E sem contar que a famosa Carteira de Saúde, quando me foi necessária, foi preciso pagar o ticket de 35,00 euros. Vendi todos os móveis da minha casa, gastei tudo o que tinha, porque além das despesas de documentação, teríamos de pagar a passagem: U$ 640,00 cada. Passagem esta que ficaríamos sabendo somente na hora de pagar, sem direito a retorno. Como sobremesa, U$ 500,00 por excesso de bagagem. Mas estávamos no barco e deveríamos içar velas. Nossos pobres reais brasileiros valiam na época quatro por um Euro e, com coração, cara e coragem, embarcamos levando uma miséria de 150,00 Euros para os dois primeiros meses, onde tudo seria gratuito: aluguel, escola, alimento. Era já o mês de maio de 2003, dez meses de investimentos no futuro que me transformaria em sombra.
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Memória torturada
Fizemos uma viagem incrivelmente estranha de dois mil quilômetros a mais: fomos para à Argentina, onde esperamos por onze horas o avião que nos levaria ao Antigo Continente. Somávamos ao todo vinte e duas (22) pessoas. E nosso primeiro débito na terra mãe foi na chegada: deveríamos pagar 22,00 Euros pelo ônibus que nos levaria, não onde estava previsto. Eu e meus filhos estávamos com endereço registrado para Fara Vicentina, mas nos separaram e mudaram quando chegamos. Minha filha mais duas amigas e eu ficamos em Arzignano, em um apartamento com mais ou menos 30m2 (um quarto com duas bicamas, um banheiro sem janela e uma cozinha com sala de estar conjugadas). Meu filho foi para Breganze e, por quinze dias, ficamos separados, nos vendo apenas nos períodos de aula na escola, até que, finalmente, o coração da mãe gritou e exigiu a família unida. Embora a vida parecesse correr em direção a um porto indefinido, tomei posse de um momento divino: o sentimento, o sorriso e o abraço. Tomei posse ou roubei, quando tudo parecia correr na direção de cancelamento do particular.
O medo de contaminar os filhos com as minhas inseguranças me obrigou a calar: não queria criar o perfil de um fantasma covarde e culpado. Hoje sei que minha culpa pode ser perdoada, mas não cancelada. O perdão, apesar da grande capacidade de curar as feridas, não cancela o erro nem a memória. Existe um dito popular que diz: ‘ninguém gostaria de saber que a mão que embala o berço, treme’.
Quantos fragmentos de dor caminharam na consciência da sombra durante a experiência com as frustrações e fragilidade?
Eu deveria me esconder no meu sofrimento e assim, dor dentro, conservar uma imagem aceitável de mim mesma? E o coração, que parecia uma asa em fuga, batendo desordenadamente, deveria fazer de conta que era taquicardia? Não! Seria um longo percurso a considerar e exigia ao mesmo tempo ternura, respeito e cumplicidade: Sole/Sombra, uma ligação que deveria ser reconstruída quando estivesse a sós comigo mesma. Se cada uma respeitasse a autonomia da outra, seria possível encontrar o espaço para a ternura. O invólucro pode ser rompido, mas o recompor possui a força maior, pois vem de dentro e do alto. Mesmo a música mais harmoniosa e doce não pode existir sem a permissão do silêncio. E foi no silêncio que insinuei meu ingresso em uma nova constelação: encontrei os sobreviventes. Explico: encontrei os sobreviventes humanos, as vítimas número dois de toda essa história.
Foi por acaso, olhando a vitrine de uma livraria no centro de Arzignano, que vi um livro que me foi emprestado, (Don Camillo), anos atrás, por Pe. Roberto Ciotola. Entrei e ‘A Divina Providência’ se manifesta quando menos se espera. O dono da livraria era Mario Bagatella que, com sua esposa Luigina Lovato Bagatella, esteve em Serafina Corrêa em 02 de julho 2003, com o Grupo de Teatro La Torre, de Chiampo. Mario e ‘Santa’ Luigina, juntamente com mais amigos do grupo Amélia e Rolando Fongaro, foram a nossa Luz, o nosso porto e o nosso abrigo. Tanto fizeram que hoje evito contar a eles alguns fatos que sucedem. Porque Mario, olhos azuis, chora. E isso me lembra meu pai, Luigi Andréa Soccol: a mesma cor dos olhos, o mesmo silêncio disfarçando as lágrimas que teimam em correr pela face.
Meu coração tornou a pulsar com os ritmos do mundo: sonho, respiração, luz. Se tudo é infinito, interno e transparente, e se o amor que se doa, entre o céu e a terra, é sempre obra da luz, o que se recebe? Amigos. Não existem palavras que possam agradecer a Deus e a essas pessoas por fazerem parte de nossa vida. Amigos mais que amigos, amigos mais que irmãos. Amigos que colocaram o sol na ponta dos dedos para doar a nós.
Obrigada:
- Pelo alimento na nossa mesa, quando esse nos faltava;
- Por me levarem e buscarem, todos os dias, até a conceria (curtume) onde fiz estágio;
- Pela casa que procuraram e encontraram para nós;
- Pela viagem a Belluno para buscar minhas bagagens;
- Pelos móveis e utensílios domésticos, pelas horas de trabalho tentando fazer da nossa casa, um lar;
- Por terem encontrado trabalho para o meu filho no mês de agosto, quando todas as empresas estavam em férias;
- Pelo dentista. Não posso esquecer ‘Santa’ Luigina, mais preocupada que eu mesma, procurando um dentista, porque, por acaso, caiu a obturação de um dente no dia 18 de junho, e só conseguimos um que nos desse condições de pagamento em 27 de novembro (dois pagamentos: um de 110,00 Euros e outro de 150,00 Euros, mais os selos em cada comprovante de pagamento, 1,29 Euros, porque cada nota ou documento deve ter um selo que muda valor, sem o selo o documento é inválido). A Carteira de Saúde e a taxa que diziam cobrar na famosa saúde gratuita na Itália provei em julho, quando fiz um curativo no dente e paguei a pequena taxa de 35,00 Euros;
- Por tudo, por tanto, obrigada... Não apenas em meu nome, mas em nome de tantos dos nossos (Brasileiros e Argentinos) que foram auxiliados da mesma maneira, com o mesmo amor e carinho.
Não posso esquecer, todavia, de agradecer a várias pessoas que nos auxiliaram:
Libera Rossi e Don Mario Zanon de Taibon - BL;
GianLuigi Secco, os Belumat de Belluno-BL;
Giorgio Roncolato de Arzignano-VI;
Don Canuto Toso, Riccardo e Luisa Masini, Trevisani nel Mondo de Treviso- TV;
Cláudio Meggiolaro da Escola de Trissino-VI;
Milosc Voutcinitch de Padova-PD e todo o Grupo de Teatro de Pernumia, que se apresentou em Serafina Corrêa no ano de 1995 (Carla Faccio, Fioretta Barnes, Mario Barbieratto e Renato Bottaro);
Ettore Beggiato, Consigliere e Cidadão Honorário de Serafina Corrêa desde 1995, de Rovolon - PD;
Egidio Pistore, Diretor do Departamento Emigraçao e Imigração da Regione Vêneto;
Beppino Lodolo de Udine - Região do Friuli;
Cristina Fantin e Roberto Parise, Marostica-VI;
Rina Cracco, minha vizinha de porta de Chiampo-VI;
Elena Chiarello da Assistenza Sociale de Arzignano-VI;
Renato Marcon do Ufficio Immigranti de Arzignano-VI;
Márcio e Nadiege Colombo- ensinando que as velas não são um peso e sim força maior para o barco;
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Marcelo Corrêa e família - Argentinos, no mesmo barco e colocando o coração nas mãos para nos auxiliar;
Casal Balsemin, donos do Condomínio onde moramos agora.
Em especial, porque vou além, e mais acima: amor, no completo significado, aquele que tudo abraça. Obrigada a Cecília e Umberto Ignazzi, de Marostica-VI, que colocaram o coração além do obstáculo para discernir um traço ou intuir ao menos uma esperança em mim e em nós.
Por tudo isso que é graça e sentimento. Pelo meu Deus e pelas coisas que amo e sempre amei que permitem uma palpitação ainda desebsoc5a de alguma coisa feliz, obrigada Paolo Meneghini e Associazione Cuore Triveneto.
Luz, de origem Divina, que apaziguou minha mente quase diariamente: Obrigada, Frei Rovílio Costa. Nunca nem ninguém escreveria palavras concerto, de cor tão azul e santas.
Revendo o silêncio
Na memória dos meus passos sempre existiu um vôo e uma porta abertas, assim, a palavra certa poderia garantir imunidade e retardar o entardecer.
Escolhi, entre todas as coisas do mundo, deixar fluir isso tudo. Sentir, sem nunca desamarrar os pássaros do meu sonho. Voar... No silêncio mágico, no amanhecer, na essência do céu tão lindo. A Sole, que sempre foi submissa à voz dos dias que falavam coisas sem valor decidiu ser forte. Não essa que escreve, não a Sombra, mas a Sole de íntimas cruzes e desafogos confidentes, de sonhos ingênuos, senhora de penumbras e viagens além, antes nunca perturbados.
E agora, Sole? A resposta vinha de um deserto com diferente filosofia, mais real e fria, digamos, de Primeiro Mundo, de um lugar de homens e mulheres de mente ávida, mas coração terreno. Era necessário persistir nos valores do que considero verdadeira manutenção da cultura e das origens em um mundo que me obrigava à arrogância do século, que outra não é, senão uma degeneração antropológica. Nem mesmo o meu/nosso ‘Talian’ parecia bastar como referência da minha identidade. Na não Pátria e não Mãe, o espetáculo não é o silêncio, mas qualquer som privado de significado essencial.
Na sequência dos dias, pouco a pouco, o que era utopia delirante foi se transformando: comecei a ver outras pessoas, os seus confrontos com o próprio ego, com a própria cultura. Não estava sozinha. Aqui vivem pessoas de cinquenta e dois (52) países diferentes, cada uma buscando um lugar, um espaço, mesmo pequeno, para colocar os pés. Para tomar conhecimento dessas pessoas, do que pensam, do que vivem e esperam, existe um modo muito simples: basta viajar nos ônibus ou trens. Basta dar um ‘bom-dia’ a uma pessoa de cor e é facílimo ler nos olhos. Primeiro: ela não é italiana, senão não, cumprimentaria. Segundo: obrigada por me desejar Bom-Dia. Por que extra-comunitário? Porque só esses vão dessa maneira ao trabalho. Aqui todos têm seu próprio carro (quero ressaltar a inteligência materialista: se pode comprar um carro por 500 Euros, até mesmo 100, mas a cada seis meses se deve pagar bem mais que esse valor de seguro, e a cada ano é obrigada uma revisão a custo X).
Difícil se habituar a um país com tantas taxas e impostos: para ter televisor em casa, a RAI cobra anualmente um valor de 150 Euros; para poder ter gás, água e energia elétrica em casa, se paga uma taxa de ligação. Um país onde quase tudo é importado (até mesmo a energia elétrica vem da França). Difícil se habituar à inovação de uma sociedade de Primeiro Mundo, de pessoas que ficavam rindo às nossas costas (almoçávamos na escola e, por sermos brasileiros, somos habituados a escovar os dentes após as refeições. Engraçado, não?). São detalhes pequenos? São. Mas foram acumulando mágoas, porque sempre acreditei que desenvolvimento incluísse compreensão, integração, aceitação, ou seja, a famosa solidariedade universal.
Nunca havia visto antes as pessoas serem humilhadas como aqui: ninguém senta perto de extra-comunitário, algumas pessoas (as não-humanas) os ridicularizam de maneira vulgar e imprópria. Num desses dias assisti uma cena tão deplorável que me fez sentir repugnância: num percurso de 30 km, pararam o ônibus 4 vezes para examinar os bilhetes. Um desses extra-comunitários não tinha o bilhete correto e a pessoa que examinava os bilhetes gritou de modo tão brutal: um documento ou 20 Euros. Umas dez vezes seguidas. A pessoa em questão tinha documentos, mas a residência em outra localidade. Simplesmente, entraram três policiais pela porta detrás do ônibus e mais três pela porta da frente e o levaram: como bandido ou coisa parecida. E ninguém ousou dizer nada a não ser a que escreve: poderiam ao menos falar em particular e não humilhar desse modo. Responderam que devo ser nova aqui e não conheço as normas e que ele era um ‘negro’. Chorei. Pela minha impossibilidade, pela insegurança que nos impõem, pelos olhos com lágrimas desse desconhecido ‘negro’ de alma igual a todas as nossas almas. Outro fato que doeu: uma marroquina entrou no ônibus, com o famoso lenço no rosto (burka) e uma senhora, gentilmente, disse a bom tom: si, si... Scondi la facia sino le mosche te magna. Li abismos profundos naqueles olhos. Sem contar meu silêncio revoltado porque nem adiantaria falar: passando na rua que vai ao supermercado, na praça do correio, duas senhoras de idade conversando: não me liguei logo quando, andando, ouvi a conversa, no dialeto moderno vicentino que vou traduzir: “eles vivem em favelas e andam armados com pistolas, e agora estão todos aqui. Nossa cidade está cheia desses brasileiros.” Remoí a dor dessas palavras por dias, não por não ter dito nada a essas senhoras que, certamente, não sabem nem mesmo da história da emigração/imigração italiana, porque disse mas, pela dor acumulando dentro.
Melhor seria que o meu pensamento fosse um moinho de vento, só movimentando ar, mais nada. Mas é lembrança de realidades percorridas, sinais que o tempo não cancela (mesmo porque nem sabe), saudades de tantas coisas, demais. O pensamento serve somente, ou quem sabe, para escrever uma nota para a canção da experiência.
Brasil, eu te amo!
Pelas tuas raças iguais que te fazem grande. Pelo teu respeito e força moral a todo e qualquer cidadão. Eu te amo, porque, Brasil, tu aceitou meus bisavós que não renunciaram à Cidadania Italiana, o que me permite hoje gritar, além mar, apesar de ser Cittadina Italiana: Eu sou Brasileira! Sinto orgulho de ser Brasileira, de fazer parte de um povo que, apesar das dificuldades, leva adiante com orgulho a sua Bandeira, Ordem e Progresso. Porque somos todas as cores, e todas as cores unidas formam a cor branca, nossa alma igual. Um país lindo, doce, tranqüilo que permitiu a >>todas as raças subirem nos >
>>teus pés e tocarem tuas asas. Eu te amo, Brasil, porque ser Brasileira permite que os anbsoc5 dancem dentro, que as palavras me envolvam, abracem e embriaguem a alma. >
Mudei tanto... Nas palavras, nos pensamentos, no sentir. Tem uma luz aqui dentro que acende e apaga, e muda de cor a cada intervalo de escuro. Um medo lento, de constante aumento, me adverte que não devo me distanciar do senso. Escrevo. Mas eu não sei escrever um livro. Escrevo o que diz o meu coração, espécie de ‘Diário’.
Não sei o que mudou aqui dentro, só sei que é dentro, espécie de eco que espalha e confunde com o vento, quase grito, e repete: Eu existo e permanecerei. Por mil anos, a partir de amanhã.
Não!
A partir de agora: Meu silêncio é o grito!
Recompondo os fatos
Busco, através das palavras, exprimir minha inquietude, o meu senso de frustração e a minha revolta nos confrontos com uma sociedade que considero injusta, e uma cultura, antes tão amada e idolatrada, hoje estranha e oposta, sem nenhum encanto.
No dia 24 de julho 2003, terminamos o que seria o curso e seu estágio. O mês de agosto, na Itália, é mês de férias. O dinheiro que recebemos do curso serviria para a sobrevivência? Não! Porque terminado o curso, o aluguel seria por nossa conta e não teríamos o suficiente para aluguel e sobrevivência. Deveríamos esperar setembro, e cada um tomou seu caminho. Os amigos do grupo, a maioria, nunca mais vi, nem tive notícias, outros, às vezes, por telefone, e outros ainda, que permaneceram perto, o que tornou possível algum breve encontro. (Fora o nosso grupo, se não me falha a memória, hoje somos bem mais de quinhentas pessoas). Eu e meus filhos escolhemos seguir por nossa conta e risco, inclusive para a obtenção da Cidadania Italiana, pois éramos ainda extra-comunitários e o custo através da Agência (Euros 150,00, cada) nos pesaria ainda mais. Conseguimos ‘Permesso in Attesa di Cittadinanza’ no dia 11 de setembro e, já no dia 25 do mesmo mês, nos tornamos Cidadãos Italianos. Que diferença faria? Somos Brasileiros, Gaúchos, Serafinenses. Ter Cidadania Italiana não me faz ser nem sentir Cidadã Italiana.
Nossos amigos humanos percorreram conosco as dores e o medo na busca de um ponto de equilíbrio. Mas foram eles que encontraram casa a menos da metade do custo do aluguel oferecido pela Agência: de 830,00 por um apartamento de 30m2, pagaríamos 350,00 Euros por um apartamento de 104m2. E eles, não nós, compraram os móveis e os carregaram ao 5° andar da nossa nova casa. Nós, meus filhos e eu, apenas pintamos o apartamento enquanto as vítimas número dois colocavam tudo em ordem, em perfeita ordem, além da procura de emprego para meu filho. Porque mulheres, ou se aceita fazer faxina nas casas, ou se cuida dos idosos nos asilos. (Os asilos são outra grande dor, aceitação do sinal de retirada da sociedade, da família e da vida. O amor, mesmo sendo assim, sem ser paixão, ou amor homem/ mulher - sendo assim, ternura, família e, não deixando de ser amor, porque é, é mais, porque é a essência que nos torna grandes e bons, e compreensivos, e alegres, e felizes, e acima das pequenas coisas, assim, tão mortais. Existe uma espécie de contabilidade invisível nas famílias daqui? Um antigo dito popular diz: ‘o modo em que se dá vale mais do que se dá’. Se eu recebi amor e vida, é assim que penso retribuir, e não entendo nem aceito substituir pai e mãe, objetos do meu primeiro amor, pelo que chamam ‘asilo’).
Nos dez meses de ‘sobrevivência’, dias quase perdidos, deixei que se liberassem a espera e a esperança no impiedoso sentir da experiência, coisas vividas. Mesmo porque esperança, nesses pedaços de céu, assim, tão particular, é voz submissa. Porém, voz autêntica, clara. Alguém vai escutar o meu grito?
Todas as expressões: o canto, a palavra, o grito e a vida correm o risco de serem formas vãs, invadidas pelo vento de imagens vazias. Não sei se vou saber dar voz ao grito no espaço que sabe e entende cada batida de coração. Talvez todas as palavras já tenham sido ditas e então alguma coisa morre dentro e fico indecisa quanto a esse sentir com sabor tão diferente do que eu era. Sole é excesso de coração. Sombra é um canto morrendo esperança. Pecado que a palavra, dita ou escrita, não chega onde o segredo do coração segue a sua história, o seu erro e o destino da sua solidão.
Não gosto de ser dominada por forças que não são minhas, que arrastam os sentimentos, que aprisionam os ideais. Não desejo que tudo o que fiz, pensei e senti sobreviva apenas como lembrança. Penso no sonho, aquele que a vida reserva a cada um que deseja olhar e sentir, nos projetos trazidos conscientemente no coração e na alma quando o barco da vida mudou o caminho, nas poesias que não escrevi. Mas toda vez que tento entender o ponto crucial, o momento da mudança que deveria ser por si só, soberano, me perco. Porque toda vez existe uma mão, uma palavra ou um gesto que demonstra o egoísmo e o ter: ‘Aqui não é Brasil e toda vez que falar com uma pessoa, faça o favor de manter distância. Vocês, Brasileiros, tem mania de se aproximar demais quando falam’. Palavras ditas me empurrando o mais distante possível. Primeiro gesto e palavras que pisotearam, não somente todos os futuros diálogos, mas também o sonho apenas iniciado.
Minha fantasia/utopia foi cancelada na sua específica substância e teve início o medo. Não me lembro de haver dado um sorriso nesses últimos meses. E cada palavra aqui escrita contém lagrimas. Porque o choro, desde que pisei em terra estranha, também faz parte. Como se meu amor pela nossa cultura e pelas nossas tradições tivessem sido feridas no mais profundo e representasse exatamente o contrário do que eu acreditava ser minha identidade. Não lembro quem escreveu, mas li em alguma parte: a gente descobre quem é quando sabe o que não é.
Quando penso sobre os momentos vividos, lembro dos tantos outros que vieram, em quais seriam agora os seus pensamentos sobre a nova experiência, o que escondem em seus corações diante das profundas mudanças na vida coletiva. Nem todos têm a ilusão de estar bem porque puderam comprar o famoso ‘celular’ ou ter conhecido uma ou duas das famosas cidades ricas de arte (antiga). Sei que muitos viveram experiências dolorosas de adaptação: convivência em grupo, alimentação diferente, a falta de estrutura no próprio caminho, a famosa insegurança, a adoção das diferenças sociais quando nós, pobres vênetos/brasileiros, estávamos habituados a usar a razão, a moral e a ética para responder aos desafios das nossas existências.
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Impossível impor um ponto de vista ou hastear bandeira. Gostaria que todos estivessem bem, verdadeiramente bem. Porque os fantasmas intelectuais, os jornalistas comandados, os que formam correntes de opinião para alimentar os políticos artificiais, registram dados que estão milhas de distância dos fatos reais: não existem responsáveis, porque não existem vítimas. Tudo o que posso dizer: mea colpa. Por acreditar. Como pude acreditar que na ‘Pátria Mãe’ uma mulher com mais de quarenta anos seria considerada gente? Se ali eu era útil; se por várias vezes deixei minha casa, junto com meus filhos, para que essa hospedasse os visitantes; se minhas pesquisas eram de valor cultural para a ‘Patria Mãe ’ que há muito tempo perdeu os verdadeiros costumes, aqui sou inútil, não tenho lugar nem espaço. Devo, obrigatoriamente, ser Sombra.
Sei de colegas, que pediram para não colocar nome, e que, tendo terminado o curso e sendo obrigatório o estágio (mecânico), trabalharam colhendo uvas nas terras dos patrões das empresas. Todo estágio é obrigatório e, na maioria, gratuito. Sendo tantos os que acreditaram, seria possível fazer um cálculo de quanta mão-de-obra gratuita obtêm as empresas? Um curso com estágio de uma pessoa que me é mais que amada: quatro horas semanais de curso, na segunda-feira, que é dia de folga no serviço, e cinco dias trabalhando por oito horas em troca da passagem do ônibus e o almoço. Período de seis meses. E quantos e mais quantos embarcaram no mesmo ‘acreditar’? Mas a Lei é assim aqui, Primeiro Mundo e, nós do Terceiro Mundo, devemos nos submeter, porque, queiramos ou não, não temos condições financeiras de voltar. A mim parece que devemos deixar nossa verdadeira identidade se decompor para que o Primeiro Mundo possa crescer.
- “Confessa, você passou muita fome no Brasil, não é verdade?”
- “Não. A gente vivia melhor que aqui. Tanto na alimentação como em sociedade”.
Então, eles ficam olhando com jeito de quem pensa: é um pobre coitado. Além de miserável e mentiroso, é orgulhoso.
Sem contar o problema maior enfrentado em terra estranha: racismo. Ser Brasileiro significa saber apenas dançar o samba, conviver com anacondas, não saber ler nem escrever, passar fome. Mas somos nós que falamos: por favor, com licença, desculpa...
É estranho brasileiro branco? Temos cabelo claro? Sim. A Itália cabe vinte e nove vezes no Brasil. Talvez eles não tenham conhecimento de dimensões geográficas.
- “Ah... Então vocês têm os terron no norte do país?” Pergunta feita com soberba superioridade e arrogância (no meu modo de ver, ignorância). É claro, eu deveria entender, porque é fácil: se entre eles mesmos existe racismo (um país pouco maior que o Estado do Rio Grande do Sul), como eu esperava encontrar respeito?
Não! Nós, Brasileiros, somos um povo formado por diversas raças, de mãos unidas como em um forte abraço, o que permite a cada um ser livre. É a nossa liberdade que nos impulsiona à ação, a vencermos os obstáculos, a superarmos as dificuldades, a contornar e redefinir novas coordenadas. Somos o povo de um País/Continente não dominado pelo contorno da aparência. Somos um povo transparente que segue o ritmo do dia-a-dia sem ficar acusando esse ou aquele pelos problemas políticos ou sociais. Somos um povo que, com inteligência e vontade, dá respostas reais aos problemas. Somos um povo de fé: sentimento e abraço total. Cada um de nós é uma pequena estrela e unidos, raças e cores, somos uma Luz. Uma grande Luz de nome Brasil. Uma Luz só desaparece diante de uma Luz maior, e que Luz poderia ser maior que a fraternidade, a união, a força e igualdade de cento e setenta milhões de pessoas que amam essa mesma terra de nome Brasil?
Quantos dias batendo de porta em porta, em cada comércio, indústria ou negócio, pedindo emprego? Nem era necessário ‘Currículo’, porque respondiam na hora: não aceitamos pessoas com mais de 30 anos de idade; não aceitamos mulheres. De uma cidade a outra, saindo de manhã e retornando à noite. Nada. E se por acaso se comenta isso com os amigos, eles não acreditam, dizem que eu não me adapto, que eu não quero trabalhar, que aqui as mulheres com minha idade são logo contratadas porque nessa idade não se ‘compra filhos’, o que sempre foi causa de perda para as empresas. Devo interrogar a mim mesma a respeito da minha capacidade? As discriminações e injustiças sociais certamente nasceram depois da partida dos nossos bisavós... E já criaram raízes. Sim, nossos antepassados levaram consigo o que se chama respeito, educação, companheirismo, amizade, sinceridade, compreensão e, porque não dizer, a verdadeira cultura.
Existe em mim um prisma de inquietação tão grande que já não consigo nem mesmo dormir. E se durmo, quando acordo, sinto medo de abrir os olhos para a realidade. É como se até mesmo a minha integridade estivesse sendo ameaçada. A precariedade de integração me tornou sensível aos temas respeito, dignidade, amor-próprio: Sinto medo de sentir respeito, porque não aceitam ou fazem pouco caso. Teimo em manter minha dignidade não gritando a dor e a mágoa do desprezo que nos jogam na cara e fica corroendo; me sinto confusa, porque a incerteza é amarga e crucifica. Quanto de mim ainda existe em mim? Devo procurar outro deus, um que possa desenhar outras linhas na minha mão e que, generoso, me permita não sentir medo do que parece ser tão obscuro?
Não me reconheço. Olhando o céu descubro que as estrelas não se ajoelham para os humanos que passam. Sinto saudades da minha cidade com sua luz de comunicação repousante, com sua atmosfera tão formal onde eu podia permanecer imersa na tranqüilidade, enlaçar o tempo no pulso e respirar... Sim, respirar. Porque aqui o ar é tão poluído pelas ‘concerias’ (curtumes) que diariamente meu nariz sangra. A água contém tanto calcário que, obrigatoriamente, se deve comprá-la para poder matar a sede, sem dizer que observando o curso dos rios onde entram, repito, entram as águas das famosas concerias, e se vê fumaça.
Meu Deus, onde está a Sole com seus vôos de chama lúcida, asas abertas no ar denso dos dias como uma sentença lida sem pressa, mas de efeito seguro?
Existe um abismo entre a alma e as palavras. Sinto a voz do vento como querendo colher sombras da noite: em cachos, a montes... Queria que o vento fizesse mesmo essa colheita para que eu pudesse jogar pela janela todas as minhas dores, os meus medos e inseguranças. Eu queria ser eu mesma, aquela que se dizia ser serena. Eu queria entender todas as coisas que preciso entender: os gestos, os sentidos, desmembrar palavra por palavra, não matar meu sonho. Ao contrário, trazer à luz outros mais escondidos ainda. Acreditar em mim mesma, em meu Deus. E me habituar, de novo, a acreditar, a cada minuto, a cada instante. No movimento dos passos, descobrir que sempre está comigo aquele que me guia; manter fixo no cérebro o coração grande e aceitar, como um bem, cada traço do destino. Acreditar,
>>>sem esquemas, que uma mão traçou isso tudo para mim, para nós. Queria ver, sempre, nas sombras dos muros a projeção de um grande sol. Acreditar que tudo o que ocorre entre o céu e a terra é sempre colorido com o mesmo amor com que Deus colore as manhãs, cada dia diferente, mas sempre com o mesmo amor. Amor! Por todas as coisas do céu e da terra. Cada hora brilhante como uma estrela cometa, rica de uma necessidade de eterno. Deus e alma. Amor. Porque é Deus e seu Amor que nos permite a paz, a tranqüilidade, a força e a esperança. E eu sei, nem o céu nem a terra podem me dar o que ainda não encontrei dentro de mim mesma. >
Eu sinto medo e eu não quero sentir medo. Ninguém, nunca, conseguiu domar os furacões senão Deus e, mesmo se meu cálice é, assim, amargo, transbordante de fel dos silêncios coados, quero ser forte e acreditar. Acreditar que não importa o que aconteça, sempre vou encontrar exílio, em qualquer tempo, em qualquer lugar, em Deus. Porque o Deus que vive dentro de mim é autêntico, verdadeiro e único. Às vezes se chama amor, mas outras vezes se chama sabedoria, fé, paciência, esperança, qualquer coisa feliz, mas sempre, sempre Deus. Quero retomar o caminho que me leva em direção ao meu eu, Sole. Quero fazer meu sonho subir aos céus para que os anbsoc5 o escutem. Porque não existe nada pior que uma consciência órfã. Tem sabor de coisas acabadas. Queria saber dizer como e porque, detrás de cada simples palavra, existe um grito onde o nada e a solidão direcionam o destino para o único horizonte certo: para dentro e para o Alto.
MOMENTOS E DIAS
As minhas palavras têm sabor de raízes longínquas, de saudades. Minha voz parece rouca, não pela discrição. Aprendi a não abraçar, a não desejar bom-dia, a defender com unhas e dentes tudo o que diz respeito à minha verdadeira terra. Minha voz, talvez seja apenas pedra e incerteza, insegurança e medo da vida. Mas é uma voz. Não apenas por mim, mas por tantos que silenciaram, não protestaram, não denunciaram. Pela sua aceitação de um destino imposto, de momentos tão dolorosos, guardados e silenciados.
Mas porque o medo do grito? Porque sentir medo desses dourados e ricos senhores da península que, com sua prepotência, apenas poluem mar e consciências? No Brasil existem favelas? Sim. Mas aqui, mesmo que digam ‘negros’, esses dormem em caixas de papelão, nas praças, no frio: a polêmica social bem casada com sinais arcaicos de civilização. Eles vêm por conta própria, tudo bem. Quando a polícia os prende, são enviados de volta. Mas porque a ‘questura’ faz tanto ‘Permesso di Lavoro’, se não são considerados bem-vindos? Verdadeiramente, não consigo entender os prós e os contra de toda essa história. Talvez os poderosos os tragam e aceitem porque precisam de mão de obra, mas o povo... O povo não sabe dos particulares e é verdadeiramente insuportável o tratamento que recebemos. Digo ‘recebemos’ porque também somos de outro país, mesmo tendo cidadania italiana. Eles pronunciam a palavra ‘brasileiro’ com um tom de sarcasmo, racismo e prepotência. ‘País do carnaval, do samba, do futebol, das favelas’. Como colocar na cabeça desses ‘polenton’ que o Brasil é um país imenso, lindo, industrializado, avançado tecnologicamente, que temos energia elétrica, sim. Que não viajamos de uma cidade a outra pendurados em um cipó, que em matéria de informática, acredito sermos mais avançados e que somos alfabetizados. Como podem nos ridicularizar sem ter conhecimento? São as contradições: nós somos Terceiro Mundo, mas quem não sabe são eles. Aproveito para colocar uma frase, que penso caber bem aqui, do Longanesi: “Um estúpido é um estúpido. Dois estúpidos são dois estúpidos. Dez mil estúpidos são uma força histórica.”
A palavra, falada ou escrita, é ação e reflexão. É memória. Um hino à liberdade e à verdade que conduz a um perfeito desenho da realidade aqui vivida, ou sobrevivida. Se todos calarem, o escuro absoluto, aquele que nos torna cegos, será eterno. Se Deus me deu o dom de ouvir e ver, deu também a condição de procurar saber. Eu quero entender. Eu preciso entender. Somente observando e analisando os fatos vou poder encontrar o ponto onde a linha mudou de direção. Hoje, aqui e agora, contestar é criar. As injustiças nascem por culpa de quem as inventa, mas também por culpa de quem as aceita tranqüilamente sem opor resistência. Se todos nós ficarmos calados e aceitando, quantos mais acreditarão na mentira? Talvez eu não saiba exprimir meus sentimentos de dor, mágoa, repugnância, mas aprendi a dizer a todos esses ‘camisa branca’: não se aproximem de mim, porque eu sou tudo aquilo que vocês não querem.
Refazer aquela parte de mim que ficou profundamente ferida não vai me tornar menos inquieta. A dor dentro caminha lenta como as estações, porque ali, fora da minha janela, de olhos fechados, está aquela parte de mundo que não vale em essência. O verdadeiro cego é aquele que não sabe olhar.
Verdadeiramente, gostaria que cada um dos que foram enganados me contasse qual a cor do seu despertar, pois, com certeza, comparando ao meu, é igual. Acredito que cada um de nós acredita que o valor da consciência moral não está na capacidade de criar grandes obras, mas de ser humano, justo e responsável. Consciência moral é ter uma alma, a que Deus nos deu, e a todos igual: branca.
Na semana passada, contratei a TIN (Telecom Itália Net Work) para instalação de Internet em minha casa. Por acaso ou coincidência, as duas pessoas responsáveis pela instalação eram de cor, marroquinos. Moro no quinto andar, e o que aconteceu? As pessoas saiam dos apartamentos para obter informações sobre o que eles queriam. Por acaso estavam espionando? Como viram essas duas pessoas no meu apartamento? Não demoraram quinze minutos para que o patrão do condomínio viesse obter as informações e provas documentadas de quem eram e o que queriam. Eu me senti um rato, ou alguma coisa parecida. Pedi desculpas aos dois que, simplesmente cumpriam seu dever de trabalhador, e esses me responderam: ‘estamos acostumados e não é a primeira vez, porque somos de cor’. O que é a dor da sombra em comparação à dor que li naqueles olhos?
Sei que é difícil de acreditar, mas a dor maior que enfrentamos é o racismo, a falta de sentimentos humanos, a frieza de coração e, por que não dizer, falta de alma. No país onde reina o catolicismo e se prega a igualdade e semelhança de todos os seres.
- “A Itália não é uma decepção, o que decepcionou, e muito, são os italianos”.
- “Nunca imaginei que fosse assim”.
- “Eu só quero juntar dinheiro para poder voltar para casa”.
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Frases das vítimas número um. Não estou sozinha na história.
Tínhamos conhecimento de quinhentas pessoas, hoje sabemos que chegam a mil. E nenhuma delas recebeu uma visita dos poderosos para que pudessem mostrar a realidade, nua e crua. Sei de quatro pessoas, dois casais, que moraram por meses em uma casa que nem porta tinha. Nem gás, nem aquecimento. Sei que dormiam no chão, que esquentaram a água para o banho (feito em bacia de plástico) no fogão. Sei de uma família que teve um dos filhos com problemas na escola, e entra na história Santa Luigina que socorreu a família, porque a criança dormia no chão. A mãe colocou o fogão no banheiro, porque não tinha lugar no apartamento para dormir e fazer comida. Sei de famílias que fizeram empréstimos imensos para poderem pagar os débitos adquiridos com o apoio dos famosos projetos. Empréstimos de cinco a seis mil Euros. Se por acaso não conseguirem pagar, se forem obrigados a voltar, como será possível o pagamento desse dinheiro com o valor da nossa moeda brasileira? E por que nunca, nunca mesmo, alguns desses realizadores de projetos vieram ter informações sobre como anda nossa adaptação na ‘pátria mãe’; se sentimos fome ou frio? Quantos dos que vieram com esposa e filhos passaram frio? Ninguém se interessou. Em nome da lei, porque, como já disse: se não existem vítimas, não existem responsáveis. Ou culpados.
Como compreender uma sobrevivência tão contraditória ao que se esperava? Como entender os equívocos contínuos que nos levam à desilusão e ao desengano? Queria que as espirais de esperança que lentamente sobem ao céu se abrissem e mostrassem uma luz. Não de resignação. Não quero que esse seja o meu sol, porque os raios caminham pelas mãos como falso fogo. Não quero o caminho de uma decadência prevista pelo engano. Deve existir ainda o milagre de iniciar um vôo quando tudo parece imóvel. E a responsabilidade dessa certeza é minha, porque continuo na mesma música, nas mesmas notas, como um compositor obstinado que espera, num pequeno sinal, a ressurreição de uma sinfonia. Ou de vida. Ou de retorno. Ainda que a verdade esteja sempre na parte que falta ou no incompleto. O último canto é sempre daquele que vê e ouve de perto o silêncio.
Dois meses de silêncio
A alma que esta terra me deu para beber me deixa tonta e não mata a minha sede.
Fim de fevereiro e parte do mês de março foi de desesperança e desespero: meu filho foi convocado para o serviço militar. Na Prefeitura daqui disseram: nunca tivemos um brasileiro aqui e não sabíamos de nenhuma lei de acordo entre Brasil e Itália. (Lei n° 924, de 04/08/1960). Tendo meu filho os documentos de liberação do serviço militar no Brasil, os documentos entregues aqui e carimbados pelo consulado.
Por que não funcionou? Tivemos de buscar provas e mais documentos, e mais viagens ao Consulado em Milão, e mais despesas. Mais a insegurança. Foram dias e noites de ansiedade, sem contar que os novos gastos não estavam previstos. Sem palavras para descrever. Nenhuma dor foi tão amarga e não vou descrevê-la. Porque a mágoa e a dor, acumuladas por meses, transformou-se em raiva, e foi no grito que consegui que fizessem a documentação. Ameaça por ameaça. A mim não interessa se aqui todo filho de sexo masculino pode ser chamado até os 27 anos de idade, interessa apenas que nos fizeram apresentar documentação de liberação do Serviço Militar e que aqui mesmo, com tradução, não sabem ler ou são incompetentes.
No grito e na ameaça, como ‘eles’ fazem, a gente consegue. Com gente ruim não vale nada ser bonzinho, nem educado. E as mesmas palavras que escrevi acima, do grito e ameaça, me foram ensinadas depois por uma amiga daqui: não seja boa, grite e exija. Assim se consegue. E conseguimos. Talvez mais por fé em Deus que pelo grito, mas conseguimos.
Assim passaram os dias. A surpresa maior ainda estava por vir: fui até a Regione saber o porquê das agências, o porquê de trazerem jovens, o porquê desses projetos... Eles não sabiam nada, não é coisa deles. Mas e o carimbo da Regione nos documentos? Ninguém sabe dizer, menos ainda explicar por que fomos enrolados, ou por quem, pois, nesse meio tempo, algumas pessoas denunciaram agências, algumas pessoas tiveram a coragem de abrir a boca e comprovar algumas coisas. Ao menos o conforto de saber que não estou sozinha
Como podemos estar sendo enganados de maneira tão sórdida? Quem está enchendo os bolsos com o desespero e infortúnio de pessoas inocentes que acreditam?
Não estou descrevendo a verdade de todos, quero deixar bem claro. Algumas pessoas se encontram bem na nova vida, velho mundo. Estou descrevendo a minha verdade sem querer desmerecer as pessoas que acham tudo maravilhoso. Mas gostaria que as pessoas que desejam vir aqui e arriscar estejam cientes da verdade, que tenham emprego seguro, preto no branco. Que tenham onde morar, que tenham segurança. Não desejo a ninguém, nem mesmo uma hora, do que vivi aqui.
Continuo na espera que alguma luz boa se acenda, que o brilho retorne aos olhos. Que o desânimo desapareça, afinal. Hoje é dia 12 de maio de 2004, quase um ano de sombra.
Busquei, e ainda busco, alguma coisa doce, leve e boa para a minha vida e para a dos meus filhos, porque acredito que possam ter ficado escondidas no chapéu de um mago velho e desiludido. Sonho ou desejo que minhas palavras cheguem ao alto, e que centenas de mãos postas em prece enlacem as asas da memória. Queria esquecer, não pensar, não sofrer, não tremer de medo a cada manhã quando o novo dia desperta para essa vida tão sem vida.
A solidão enlouquece? Talvez. Mas a humilhação sofrida nesse quase ano é coisa que não tem como tirar de dentro. Se a vida é tecida de palavras, se o mundo é um mundo de palavras, mudar de argumento é um risco de anular a linguagem. Queria falar de coisas lindas. Que a Itália ou o Vêneto, terra que sempre viveu nos meus sonhos, no meu trabalho, no meu dia-a-dia, é um lugar maravilhoso, gente boa e simples, que as gôndolas de Veneza são doces, calmas e deslizam tranqüilas nas águas da Sereníssima. Mas não é assim.
Meu coração, acredito, era um gigante adormecido. E despertou impondo raciocínio em todos os sentidos. Certamente, me faz acreditar que a dor não é somente sofrimento, mas que o sofrimento é a certeza do meu persistir. A minha verdade continua sendo a minha verdade. Não por ser tão somente teimosa. Sei o quanto acreditei em coisas e pessoas nas quais não deveria ter acreditado. Sei também que eu não deveria multiplicar as sensações, pois a Sombra dentro de mim pode se tornar incontrolável. Mas escolhi não ser bruxa nem anjo. Escolhi ser o que sou, Sole, mesmo chama coberta de cinzas. Seria tão bom se o sonho ainda existisse e me presenteasse ar para poder respirar; se pudéssemos
>>> andar juntos, o sonho e eu, caminhando nas manhãs e festejando o sol, doador de ternura e vida. Era tão lindo quando meu coração estava onde minha alma pulsava e se espreguiçava na vida, porque era feito de amor. Meu coração tinha um jeito estranho de injetar o universo nas minhas veias e desenhar hinos ao imenso que se esconde por detrás do sol. >
Mas agora... Como olhar as estrelas de um céu mudo se o horizonte foge, eternamente foge, e de braços cruzados? Eu, Sole, que acreditava no amor das rosas e no crescer do grão, estou aqui, sozinha, com minhas asas doloridas, chorando e abraçando o tempo. Porque meu coração não consegue roubar grãos nas noites de um céu tão pequeno. Ah! Então eu o arrasto, pobre coração que acreditava (em trajes de gala, porém), pelas estradas onde caminho, proibindo qualquer palavra e digo: “Vai, doce febre. Tu és apenas um raio vagabundo...” E dói, porque sinto que escorre azul de dentro do peito. Meu Deus, quanto dói um coração teimoso numa vida cansada. Eu queria inventar uma mão invisível que cancelasse o que existe dentro. Ou comprar uma lua particular que permitisse que o escuro eterno não despertasse nunca o que deveria ficar calado e embutido. Mas ele persiste e insiste, doce como as nuvens que embalam cachos de céu.
Por mais que eu me esforce, meu coração existe. E escreve por mim. Meu coração não acredita que a verdade esteja sempre na parte que falta ou no incompleto. Ele acredita que ter fé não é o mesmo que raciocinar. Porque a fé é a força. Talvez seja difícil descobrir algo novo, ou mesmo a verdade de tudo isso, porque a vida é gerar e regenerar e talvez (sempre o talvez) buscar o novo, ou respostas a tantos porquês sejam uma falsa solução para o verdadeiro problema. Por que eu não deixo as coisas como estão, sem querer procurar as respostas? É tão simples e fácil fazer de conta que está tudo bem. Eu sofri, então devo deixar que cada um sofra a sua parte, porque buscou da mesma forma que eu busquei um novo caminho. Mas não é justo, e não aceito injustiças planejadas.
Às vezes, entro em confronto comigo mesma, sinto o rumor das vozes e espadas do meu anjo e do meu demônio de dentro: um quer o domínio da aparência sobre a substância oculta, o outro está completamente convencido que é apenas contorno. É um vazio, um poço sem fundo. Então, me sinto uma terceira pessoa nessa história e desejo encontrar o ponto de partida. E quero chegar: inventar um novo estatuto, mudar o ângulo visual, escrever ou falar publicamente, entender porquê, no intercâmbio entre o feito e o não feito, não existe a garantia de um soberano equilíbrio. O que me responderiam esses que nos conduziram a esse caminho se eu perguntasse a eles o que entendem de presença e de ausência?
E se a vida é o presente, o momento... O que é o momento passado? Sou, por acaso, um ser com asas obrigado a não voar? É verdadeiramente fácil estruturar qualquer coisa nesse ciclo habituado a materialistas. Mas não me sinto vinculada a isso. Acredito que em algum lugar, além do céu e além do mar, existe uma varinha de condão que, com seu toque mágico, transforme essa solidão imposta em presença. Acredito em Deus, na sua bondade e na sua justiça. Quem senão Deus pode fazer o milagre? Por meu Deus e minha fé, continuo compositora obstinada. Eu ainda acredito.
Há pouco tempo, um amigo me disse que eu era como um rio que repentinamente se transforma em cascata e acaba envolvendo tudo. Que eu seja o rio, e que a verdade seja o mar. A vida é por demais importante, e não deveria ser assim tão frágil. O que escrevo vai somente até onde a palavra é amorosamente sonhada. Falta tanto do que foi vivido e sentido. Falta a essência da dor, falta muito do conteúdo da sombra, do grito, do silêncio, da mágoa, das humilhações. Não consigo ser tão terrena e descrever com os pés no chão o que verdadeiramente dói dentro. Porque é dentro demais e o choro vem para os olhos impedindo até mesmo de ver o que escrevo. É uma dor tão grande que transpassa o peito, envolve a alma e me trai, porque o coração e a dor escrevem e eu sei que um pequeno sopro de vento pode apagar a chama, a luz e as minhas vontades. Mas não o fluir da minha vida ainda tão cheia de medos e inseguranças. Vou perder amigos pelo que meu coração escreve. Vou perder contatos. Vou ouvir desaforos. Mas são os sopros de vento que não vão conseguir apagar a minha verdade. Seria tão fácil cancelar tudo como em computador ou com uma borracha. Se a verdade fosse cancelada. Mas não é. Ela continua dentro, doendo, doendo, doendo. E eu quero deixar a minha alma nos caminhos por onde andei e, junto, todas as coisas que fiz por amor. Se me coloquei desde menina com os passos leves sobre as manhãs que tocavam os prados, se recolhi mil sonhos e ilusões, o eco frágil do mar, e os guardei dentro do coração (a parte mais bonita de mim); se sou submissa aos diálogos da terra ao céu, ao medo de instantes incandescentes e às colinas de luz sobre os meus quatro muros de liberdade... Meu Deus... Para sobreviver ao que chamamos Projeto Rientro seria necessário o encanto. E este faltou. Juntamente com tudo o que consideramos tão simples e descobrimos tarde que é tão necessário à sobrevivência: respeito.
Sem magoar amigos, sem desmerecer as pessoas que foram maravilhosas com todos nós: brasileiros, argentinos e sul-americanos... Sem desfazer a verdade de cada um. Seriam tantas a verdades, algumas mais doloridas que a minha, e não estou autorizada a descrever.
Que a minha mágoa e dor sejam uma luz para os que desejam seguir o sonho.
E se alguém seguir o sonho, que esse tenha asas que saibam voar além da realidade materialista do primeiro mundo. Fiz do meu coração uma aquarela e da minha alma uma tela para poder colorir a verdade nua e crua. Que essa possa entrar no profundo de cada um e ser um sinal, um aviso, uma maneira de entender o meu carinho por todos os que passaram pelos mesmos caminhos que passei e o meu respeito àqueles que ainda pensam vir, andar e sonhar.
Sole
14 Junho 2004
PS.: Em 03 de abril de 2005, fui a primeira Candidata ao Consiglio Regionale Del Veneto, nascida fora da Itália, e já seria outra história. Voltei para o Brasil, meu Estado Rio Grande do Sul, meu BRASIL, em 09 de abril de 2005.
















